Existem vários estudos que revelam uma associação entre o aumento da mortalidade e do calor, medida quer pela temperatura máxima ou mínima, por índices de calor e, por vezes, por outras condições meteorológicas. Efeitos na saúde parecem estar associados à exposição do corpo humano a temperaturas elevadas e prolongadas acima das quais a população está habituada (Mcgeehin e Mirabelli, 2001).
Foram usados dados de mortalidade (INE) nos períodos de Verão de 1990, 1991 e 1992 e dados das temperaturas diárias do ar em Julho de 1991, com o objectivo de estimar o exacto período da onda de calor em Portugal e o respectivo excesso de óbitos verificados, bem como estudar a sua distribuição por sexo, grupo etário, distrito de residência e as diferentes causas de morte.
Consideraram-se expostos a ondas de calor os distritos onde se registam temperaturas máximas iguais ou superiores a 32,0ºC durante um intervalo de dois ou mais dias consecutivos.
Estimou-se o excesso de óbitos total por dia e o excesso de óbitos por sexo, grupo etário, distrito de residência, causa de morte pela diferença entre o número de óbitos observado e o número de óbitos esperado. O número de óbitos esperado em cada dia foi obtido através da determinação do número médio de óbitos ocorrido entre 1 de Maio e 31 de Agosto de 1990, 1991 e 1992, excluindo os dias afectados pela onda de calor. Avaliou-se o significado de o excesso de óbitos pelo estudo da significância estatística da razão óbitos observados/óbitos esperados (O/E) sob hipótese nula O/E ser igual a 1, vs. hipótese alternativa O/E ser superior a 1, tendo-se assumido que a ocorrência dos óbitos seguia uma distribuição de Poisson. No entanto, sempre que o número de óbitos observado foi superior a 100, utilizou-se a respectiva aproximação à distribuição normal.
Entre 8 e 22 de Julho de 1991, todos os distritos de Portugal continental estiveram expostos a uma onda de calor. No mesmo ano, de 12 a 21 de Julho, verificou-se um número de óbitos diário significativamente superior ao esperado, tendo-se estimado a nível nacional e para esse período um excesso de 1002 óbitos. Verificou-se um excesso de óbitos em ambos os sexos e em todos os grupos etários, com excepção das crianças, em ambos os sexos, dos 0 aos 4 anos de idade e das mulheres dos 25 aos 54 anos.
A análise por distrito revelou um excesso de mortalidade em todos os distritos expostos, com excepção de Aveiro, Viana do Castelo e das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
De entre as causas de morte associadas à onda de calor destacam-se as doenças do aparelho circulatório, responsáveis por um excesso estimado de 472,3 óbitos, sendo as doenças cérebro-vasculares responsáveis por cerca de 29% do total de excesso de óbitos. As neoplasias malignas apresentaram um excesso de cerca de 139 óbitos. No grupo nosológico das doenças do aparelho respiratório (com 112 óbitos em excesso) destaca-se a causa por broncopneumonia e pneumonia por microorganismos não especificados. O grupo dos sintomas, sinais e afecções mal definidas foi também um dos mais afectados, com aproximadamente 105 óbitos em excesso.
Da análise da razão O/E destacaram-se ainda as seguintes causas:
— Efeitos do calor e da luz (razão O/E = 89,7);
— Doenças da pele e do tecido subcutâneo (razão O/E = 7,0);
— Doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo (razão O/E = 4,5);
— Queimaduras (razão O/E = 4,7);
— Afogamento (razão O/E = 3,1);
— Doenças do sangue e dos órgãos hematopoéticos (razão O/E = 2,7);
— Doença hipertensiva (razão O/E = 2,2);
— Sintomas (razão O/E = 2,2);
— Broncopneumonia e pneumonia por microorganismos não especificados (razão O/E = 2,2).